Gustavo Moraes é um jovem cineasta, nascido em Vitória/ES, que mora em Nova York há alguns anos. Confira seu depoimento e suas impressões sobre o atentado que destruiu o World Trade Center no dia 11 de setembro de 2001.

DIRETO DE NOVA YORK

NY, 11 Sept 2001

Querido amigos,

Desculpem pela mensagem em grupo, mas esta é a melhor maneira de avisar a todos que ESTOU BEM. Ainda não da para prever o que ira acontecer nos próximos dias, mas com certeza os EUA irá fazer algo e mais ataques poderão acontecer. Não, não virei analista político, mas esse parece ser um pouco do clima no momento por aqui - principalmente com o Bush no poder. Já saí hoje. Fui ao supermercado comprar umas latinhas. Nada como uma pré-produção. De repente, tô criando o efeito "vai faltar água"- todo mundo lota as pias, banheiras e tudo o mais, porém não havia agitação nem comoção.

O que mais se ouve porém no momento são as sirenes de ambulâncias, bombeiros e polícia; contudo, o número de veículos parece estar aumentando novamente na rua. Os metrôs haviam parado, mas agora parecem estar voltando ao normal, pois posso ouvi-los daqui. Telefones celulares não estão funcionando e os únicos aviões que ouço são os da força aérea, já que todos os vôos comerciais foram cancelados.

Por favor, não acreditem em tudo que é dito na tevê. Como de costume os exageros estão rolando. É claro que a situação na parte mais baixa da ilha de Manhattan está caótica, mas nem tudo na ilha parou. Onde moro, perto da universidade de Columbia, as coisas parecem estar normais - ou normal é uma palavra forte neste sentido. As pessoas estão meio que sem acreditar e muitos comentam que parece coisa de filme. A poeira que foi causada pela queda das torres gêmeas deixou a parte Downtown toda interditada, já que esta é uma das áreas mais fechadas da cidade. O sistema de blocos não começa nessa área, e sim bem acima, depois da Soho - logo, as ruas são mais apertadas e sem seguir muito um corte regular. A poeira, por sua vez, parece estar cruzando o rio e não subindo pela cidade, indo em direção ao Brooklyn, Queens e Staten Island, esses, outros bairros de Nova York.

As pessoas estão andando pela cidade para chegar em casa ou sair da área afetada, já que não há transporte publico. Vários prédios fecharam e escolas estão mantendo as crianças, já que muitos não sabem onde estão os pais, ou moram em outros bairros da cidade. A ilha de Manhattan está fechada e não há trens nem carros passando nas pontes e túneis que conectam com o resto da cidade e do país.

Infelizmente ainda não ouvi notícias de todos os amigos e conhecidos que trabalham nesta área da cidade - Downtown. Não creio que ouvirei deles em breve. As conseqüências só serão sentidas aos poucos, com o passar das horas, quando as pessoas começarem a racionalizar melhor o ocorrido. O número de mortes, até onde eu saiba, ainda não é sabido - mas dá para se ter uma idéia de que a situação está feia pra lá. Hospitais de toda ilha estão pedindo ajuda e voluntários. Sangue esta em falta em muitos deles.

Bem, acho que isso. Espero que não tenha assustado ninguém. As coisas aqui onde moro não estão tão ruins quanto devem parecer na tevê daí. Honestamente espero que as coisas estejam melhores por aí, e como disse a um amigo, - Você não está feliz de saber que você NÃO está na supostamente "melhor cidade do planeta"?

Grande abraço,
Gustavo


IMPRESSÕES DE UMA NOVA NOVA YORK

NY, 12 Sept 2001

Passei o dia inteiro em casa, tentando saber de amigos e conhecidos através do telefone, que parece só ligar e não receber chamadas , e e-mail, principalmente os escritos em frase única pedindo apenas um simples "reply" que demonstrasse estarem vivos. Ao fim da tarde, porém, cansado de saber que vivia um pouco do que via na tevê, fui gastar o stress correndo num parque aqui perto. Sei que parece loucura, mas a realidade, por mais estranha que fosse, parecia justificar tal investida. Incrível como nessas situações a necessidade de ver outras pessoas e se comunicar cresce a uma proporção inimaginável. Se as linhas telefônicas estivessem cortadas e a eletricidade acabado, com certeza me sentiria sozinho nesta ilha.

No parque, as pessoas meio que se olhavam de maneira diferente como se o consciente coletivo exigisse um "oi" ou um sorriso simples, de canto de boca. Como devem saber isso é raro nos rostos dos nova-iorquinos. Casais, heteros e homos, caminhavam de mãos dadas como se necessitassem daquele contato humano pra caminhar. O silencio das highways , que são paralela ao parque, davam uma certa impressão de calma, que, no fundo, mais se associava a um vazio, fosse ele espiritual ou físico. Esse vazio só era quebrado pelos veículos em alta velocidade que nela cruzavam. Carros de polícia escoltavam caminhões do bombeiro e vários caminhões pesados trazidos para recolher o entulho deixado pela queda dos três prédios. Ambulâncias vindas de cidades vizinhas e outras de localidades bem distantes também passavam, porém somente com as luzes de emergência ligadas, adicionando ao tom surreal do fim desta tarde. Estes por sinal foram os únicos veículos permitidos de entrar na ilha. Pais que moram em outros bairros, mas têm seus filhos estudando em Manhattan, tiveram que entrar na ilha a pé para ir buscar seus filhos nas escolas.

Com o sol se pondo a beira do rio Hudson- visão que sempre me trouxe uma certa paz quando corro no parque - notei a serenidade das pessoas a minha volta, todas buscando algo de familiar no horizonte, algo que trouxesse ou lembrasse a normalidade que, por mais louca que fosse, até ontem vivíamos nesta cidade. Um parque costumeiramente alegre parecia um cemitério, em seu sentido mais literal - com crianças caladas e adultos falando baixo entre si, observando somente o sol, que aos poucos partia.

No caminho de volta pra casa, um mendigo que já faz parte do cenário local, estava em seu ponto costumeiro pedindo esmolas. Antigo conhecido meu, perguntei o que fazia ali num dia como hoje com poucas pessoa na rua. A resposta foi simples: - A vida continua. Aos poucos, parecia, a cidade tentava mostrar suas qualidades de guerreira. Igrejas, de todas as crenças, estavam tendo serviços religiosos para que as pessoas pudessem juntas, dividir suas dores. A cidade começava a aceitar sua nova realidade. O paraíso da liberdade, como os americanos gostam de se ver, havia sido destruído.

Ao fim da noite, as ruas ficaram desertas. Famosa por nunca dormir, Nova York hoje teve suas lojas com neons que esbravejam "open 24 hours" totalmente fechadas. O número de policiais nas ruas aumentou. Só aqui, na esquina de onde moro, tem um centro de estudos judaico, e quatro policiais estavam postados à sua frente. O trânsito constante e o papos de fim de noite no bar pareciam coisas de outra época. Me senti numa cidade fantasma ou em uma vila evacuada onde os que ficaram estão de quarentena ou sob toque de recolher. Os poucos que vi passar falavam sobre o assunto ao celular, agora que estes voltaram a funcionar. Já línguas estrangeiras, marca registrada da cidade, era ouvida apenas nos telefones públicos que estão funcionando gratuitamente para que a população se comunique com entes queridos. Ônibus e metrôs não cobraram hoje no fim da tarde. Taxistas, porém, correram com a luz apagada, e a cada um que fazia sinal, perguntavam antes aonde iam. O medo era de pegar um freguês que os levasse para fora da ilha - já que sair agora não é problema, entrar é que é impossível - tudo pelo medo de perder assim a oportunidade de fazer dinheiro neste momento de alta demanda.

O presidente fala sobre a importância da liberdade, mas só é pouco sentido nas ruas. O povo encontra-se abalado e disposto a qualquer coisa para vingar o ataque ao seu senso de segurança e conforto. Neste momento, o prefeito parece ser a única pessoa em que o povo daqui parece confiar. As conversas na rua demonstram isso. "Ele pode ser o chato que for, mas nessas horas mostra que é quem manda. E isso é essencial", ouvi de uma mulher na rua. Este conceito de ordem parece importante nestas circunstâncias, o que dá ao durão do nova-iorquino um senso de segurança. Este mesmo senso parece faltar ao presidente, que se relaciona com o povo através de discursos calculados com frases de efeito, evitando assim o contato humano, tão essencial ao povo de Nova York nessas horas.

Hoje, Nova York, conhecida pela agilidade no trato e desprezo ao outro, parou. Todos com quem conversei, mesmo os que estavam em seus escritórios, não trabalharam hoje. Pela primeira vez, compreenderam a irrelevância de suas funções e rotinas num dia em que os americanos conheceram, mesmo que a contragosto, a maca que arruinou o paraíso.

Abraços sinceros,
Gustavo